Posts Tagged ‘roda filosófica’

NIETZSCHE E O NAZISMO

12 de julho de 2010

Nas férias, um dos meus entretenimentos prediletos tem sido a leitura do Ascensão e Queda do Terceiro Reich, de William  L. Shirer, jornalista e testemunha ocular dos antecedentes e da própria Segunda Guerra Mundial. O capítulo que mais me  chamou a atenção até agora é o relativo as raízes intelectuais do Terceiro Reich, especialmente sobre a influência do pensamento do tão festejado Nietzsche.

Os escritores nazistas jamais se cansavam de louvá-lo. Hitler visitava com freqüência o museu de Nietzsche, em Weimar, e fazia pública a sua admiração pelo filósofo, posando para os fotógrafos em atitude de êxtase diante do busto do grande homem.

Qualquer nazista poderia citá-lo na exposição de quase todos os temas imagináveis. Do cristianismo, por exemplo, Nietzsche dizia ser uma “terrível maldição, desmedida e profunda perversão”. E exaltava o super-homem, animal de rapina, “o magnífico bruto alourado, agressivamente sequioso de saque e vitória”. Em Assim falava Zaratustra bradava o filósofo: “Não vos aconselho a paz, mas a vitória. (…)Dizeis que a boa causa justifica até mesmo a guerra? Eu vos digo: a boa guerra é que justifica qualquer causa. A guerra e a coragem têm feitos mais grandiosos que o amor ao próximo”. Finalmente, havia a profecia de Nietzsche de que surgiria uma elite que governaria o mundo e da qual se elevaria o super-homem. Em Vontade de potência, consigna: “Uma raça destemida e dirigente está se criando (…). O objetivo será preparar uma transposição de valores por uma espécie de homem particularmente forte, a mais altamente dotada de inteligência e de vontade. Este homem, e a elite em torno dele, se converterão nos ‘senhores da terra’”. Não resta dúvida de que, no fundo, Hitler se considera o super-homem da profecia de Nietzsche.

Diante disso, é preciso repensar na importância e peso que se dá até hoje ao pensamento de Nietzsche. O nazismo passou, mas alguns dos seus fundamentos filosóficos permanecem sustentando a mentalidade e a cultura contemporânea, e que talvez explique, em grande parte, a raiz dos males da nossa civilização, como a exacerbação da violência, a eugenia, manifestada atualmente na defesa do aborto de seres humanos vistos como “inviáveis”, o desaparecimento das ações caritativas, da justiça e da virtude pessoal, aniquilados pelo individualismo e pelo darwinismo social, etc.

Sem dúvida, o mundo de hoje tem tecnologia e velocidade, só falta esclarecer para onde estamos indo (e acelerando!)?.

A VOVÓZELA

26 de junho de 2010

Quando estava lendo o jornal O Globo de domingo, dia 20 de junho, deparei-me com a imagem abaixo na Página Logo, de autoria do sociólogo Bruno Liberati, que penso representa muito bem a nossa “Vovózela” de hoje. Liberati construiu a gênese da nossa heroína a partir da década de 60, quando bebeu das águas da contracultura e da ideologia marxista. Assim a nossa jovem “questionou o sistema e queimou o sutiã”; “-Nos anos 70 viajei”, continua ela, referindo-se a suas experiências com as drogas; “-Nos anos 80 minhas utopias foram para o buraco”, ou seja, a derrocada do comunismo. Penso que a sociedade atual é o fruto do que foi semeado nesse período de 20 a 30 anos. Trata-se da ruptura com a tradição e da ascensão e queda das utopias, capitaneadas pelo comunismo, cuja meta maior era destruir o sistema anterior e o seu conjunto de valores, eis que baseados numa infra  estrutura capitalista e opressora. Resultado: os valores ruíram e, pouco tempo depois, desabou o ideal socialista. Resta agora, mais forte do que nunca, justamente o que fora combatido: o burguês em estado puro. Ou seja, “-Enquanto isso…a globalização rolou solta quebrando tudo – o neoliberalismo criou o deus mercado – a mídia tomou conta do espaço público e a vida virou um ‘irreality show’do espetáculo do consumo”. A sociedade atual é devota do deus Baco, da violência, das drogas, da “grana na cueca”, do “serlular” etc. É imperioso o resgate da ética dos valores e das virtudes, sob pena de nos devorarmos uns aos outros. Sobre o mundo após a crise das utopias, recomendo vivamente um artigo publicado na revista Dicta&Contradicta, do filósofo  Massimo Borghesi.

A história da Vovózela

Conservador vs Liberal

4 de junho de 2010

Certa feita, em uma discussão de tese jurídica no trabalho, defendi um posicionamento que, posteriormente, foi taxado de “conservador” por meus colegas. Fiquei com a pulga atrás da orelha (mas, se procurei apenas justificar racionalmente a tese que defendida…). Comecei a notar, a partir de então, quão relativa e tendenciosa é a classificação que se faz de que algo é “conservador” ou “liberal”.

Geralmente, quando se chama alguém de conservador, quer se dar a conotação pejorativa de uma pessoa retrógrada e ultrapassada, que resiste aos “novos tempos” e a “nova mentalidade”. Por outro lado, o liberal é alguém “prafrentex” que desbarata tabús em prol do progresso da humanidade.

Não sei se isso tem haver com os anos 60, Woodstock e o movimento hippie, cujos arautos proclamavam o “é proibido proibir” e propugnavam uma completa reviravolta nos costumes e valores da sociedade. Certo é que estamos colhendo os frutos desta mentalidade: o mundo moderno é um lugar medonho, violento, individualista e hedonista.

Mas não pretendo aqui dizer como um amigo, que afirma ter nascido na época errada (segundo ele, com 200 anos de atraso), ou falar como certas vovós saudosistas (“-Esse mundo está de pernas para o ar! No meu tempo é que era bom!). Sem sombra de dúvida o mundo evoluiu em diversos aspectos, como no progresso das ciências e da tecnologia; no reconhecimento praticamente universal dos direitos humanos etc. Mas não se deve rechaçar o passado, ou antigas tradições e valores, pelo simples fato de ser “velho” e refletir uma mentalidade “conservadora”.

Devemos, sim, fazer um acolhimento racional daquilo que é tradicional, aprimorando-o com as conquistas dos tempos atuais através do filtro da verdade e da razão.

Étienne Gilson diz que  “há um problema ético na raiz das nossas dificuldades filosóficas; nós homens somos muitos voltados a buscar a verdade, mas reticentes em aceitá-la. Não gostamos que a evidência racional nos encurrale, e inclusive quando a verdade está aí, na sua impessoal e  imperiosa objetividade, continua de pé a nossa maior dificuldade: para mim, submeter-me a ela, apesar de não ser exclusivamente minha […]. Os maiores filósofos são aqueles que não titubeiam na presença da verdade, mas lhes dão as boas vindas com estas simples palavras: Sim, amém” (A filosofia na idade média São Paulo. Martins Fontes, 1998).

Não se trata, assim, de ser “conservador” ou “liberal”. Devemos ser filósofos, no sentido pleno da palavra, ou seja, amigos da sabedoria, e portanto, da verdade, mesmo que ela tenha sido desvendada por medievais ou pelas vovós saudosistas.

O ANIMAL QUE RI

6 de março de 2010

Na última Roda Filosófica, discutimos o texto “O humor nos tempos da cólera”, de Marcelo Consentino, publicado na Revista Dicta e Contradicta (http://www.dicta.com.br).  “O homem é o único animal que ri”, ensina Aristóteles. O ato de rir é patrimônio exclusivo do animal racional. O autor ensina que, para rir, é necessário um desligamento temporário e momentâneo das emoções. De fato, se assistirmos a uma ópera tampando os ouvidos, sem nos deixar dominar pela emoção da música e do ambiente, vemos quão engraçados são as roupas e movimentos dos artistas, simulacros que são de guerras ou de dramas humanos. O riso ordinariamente é produzido num ambiente comunitário ou relacional. “Quer rir, tem que fazer rir”, diz o personagem de um conhecido filme. A surpresa que causa uma piada é certamente uma condicionante indispensável. Mas um aspecto bastante ressaltado por Bérgson é que o riso nasce como uma espécie de censura que um determinado grupo dirige a um indivíduo em razão do seu comportamento inadequado. De fato, as piadas de português são engraçadas para os brasileiros em razão da desconformidade entre a forma de pensar de um português, que possui uma linguagem denotativa, e a de um brasileiro, cuja linguagem é mais conotativa. Assim, segundo o autor, o riso é ao mesmo tempo uma reação e uma correção a algo que desconcerta ou desequilibra a vida individual ou social. Neste sentido, o autor ressalta a ironia com uma função social: corrigir de forma sutil a conduta de alguém que age vaidosamente ou de maneira hipócrita. Sem dúvida, a ironia desperta a pessoa para a dissonância da sua conduta. Entretanto –  e aqui discordo do autor – é preciso ser muito hábil para saber utilizar-se dela, pois a ironia não deixa de ser humilhante para aquele que é objeto de comentário, ainda mais se considerarmos que ele é feito na presença de outras pessoas. Por outro lado, um ponto pouco trabalhado pelo autor e bastante ressaltado na nossa Roda é o saber rir de si mesmo. Narrei um episódio da vida de S. Josemaría Escrivá. Certa feita, ele andava mal humorado e acabrunhado. Teve então a seguinte idéia: “-Vou tirar uma foto instantânea!”. Ao ver quão ridícula era a sua cara sisuda, riu-se e recuperou o bom humor. Escrivá nos ensina que, quando andamos mal humorados, especialmente por algo que feriu o nosso orgulho, é preciso que saíamos de nós mesmos para enxergarmos a verdadeira dimensão daquilo que nos chateia. É  preciso que façamos uma suspensão momentânea dos nossos sentimentos de ira e orgulho ferido para que descubramos  a  “tempestade no copo d’água” gerada pela nossa imaginação e que é causa de sofrimentos, chateações e conflitos humanos. Humildade, não levar-se tão a sério e rir de si próprio é a melhor terapia contra grande parte dos nossos dramas.

O SENTIDO DO BELO

18 de outubro de 2009

Não me admira que o homem atual sinta uma atração especial pelo mórbido, pela aberração, pelo feio. A síntese dessa realidade é, a meu ver, o Funk, erigido a “patrimônio cultural” do Rio de Janeiro. Sinceramente, eu não sei o que é pior no Funk, se é a “melodia” from hell,  ou se é a letra, uma espécie de “mantra” de sexo e violência.

Ponta Seixas, extremo oriente das Américas

Ponta Seixas, extremo oriente das Américas

O homem moderno perdeu o sentido do belo a partir do momento em que passou a instrumentalizá-lo como forma de dominação ou de transformação social e ideológica. A beleza começa ser destruída com Nietzsche, esvaziando-a do seu sentido ontológico quando afirma que o belo não está nas coisas, já que o próprio homem o produz para dar as coisas e assim empobrecer-se. É auto-engano do homem.

São conhecidos os pensadores que quiseram utilizar-se do belo como forma de revolução social, como Gramsci, que propôs a utilização das artes para implantação do comunismo.

A arte moderna, a partir do momento em que, numa revolta quase adolescente, quis se libertar de qualquer “regra”ou proporção de estética, caiu no abismo do caos e do non sense. Em vários campos da arte (música, pintura, escultura, etc) abstrações que marcam o triunfo do disforme e do informe são tidas como obras-primas pelos especialistas. Mas o homem simples, desprovido da “sabedoria dos intelectuais da cidade” percebe que se trata de autêntica feiúra, mais ou menos como na fábula em que um menino grita que o rei estava nu.

Ocorre que a beleza possui uma dimensão ontológica. Assim, um dos elementos estruturais da beleza classicamente consiste na forma. A obra de arte é sempre e apenas uma obra demiúrgica, imprimindo forma ao informe, tirando do caos o cosmos em que brilha o logos. Para os gregos, a arquitetura, a escultura e a cerâmica baseavam-se em cânones que constituíam uma regra de perfeição essencial e podiam ser expressos com exatidão por meio de números e proporções.

Os  gregos consideravam inseparáveis o belo do bem, o que sintetizavam pela palavra “Kalokagathia” (καλοκαγαθία), conceito grego derivado da expressão kalos kai agathos (καλός καi αγαθός), que significa literalmente belo e bom, ou belo e virtuoso Por outro lado, Konrad Lorenz afirma  que “a familiaridade com o belo é um ótimo antídoto contra a opinião equivocada (…) de que só é real o que pode ser definido com exatidão e quantificado”.

AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA NOS TEMPOS ATUAIS

27 de setembro de 2009

Muito se fala sobre a escalada da violência em todo o mundo. Quanto a suas causas, no caso do Brasil, a opinião geralmente aceita é a de que seriam  basicamente duas: a impunidade reinante e a existência de bolsões de pobreza no país, solo fértil para o crescimento da criminalidade.

No que tange a impunidade, sem dúvida, os três poderes do estado têm a sua parcela de responsabilidade: o comportamento dúbio manifestado por diversas vezes pelo Judiciário na punição de delinquentes; o cipoal legislativo penal e processual penal, onde sempre é possível encontrar uma brecha; o despreparo da polícia, a falta de vontade política dos governantes para enfrentar o problema e resolvê-lo  de uma vez por todas  são fatores importantes para a banalização da violência no país.

Entretanto, notamos que todas as causas acima mencionadas são “extrínsecas ao homem” e mais conformes ao direito e a política. São medidas preventivas ou repressivas da violência, mas que não atuam na gênese da maldade.

A pobreza e a marginalização também não poderiam ser diagnosticadas como a razão da violência desmedida, haja vista que ela atinge a todas as classes sem distinção. Neste sentido, citamos como exemplo o caso de Suzane von Richthofen, uma bela moça da classe média alta paulistana que cursava direito em uma das melhores faculdades do país e que assassinara os pais a sangue frio e de maneira cruel, auxiliada pelo namorado e seu irmão; os Pitt boys etc. Além disso, lembramos que se trata de um drama internacional. Volta e meia nos deparamos no noticiário com a história de  uma criança assassina, um serial killer que anuncia a sua ação no YouTube e, após matar pessoas inocentes, suicida-se etc.

Assim, a meu ver, a raiz da banalização da violência atual não se encontra numa má distribuição de renda ou na falência do aparato estatal em combatê-la. Trata-se de um mal da sociedade atual, sofrido a nível mundial. A banalização da violência é a externalização, o sintoma de uma civilização definhando.

O homem atual encontra-se mergulhado no niilismo que, no entender de Nietzsche, “não é apenas a contemplação da inutilidade de tudo, nem apenas a convicção de que todas as coisas merecem cair na ruína,: pondo mãos à obra,  manda-as para a ruína...Isso é, se quiserem, ilógico; mas o niilismo não crê na obrigação de ser lógico…É o estado dos espíritos e das vontades fortes, e eles não conseguem determinar-se no não ‘do juízo’ – o não da ação faz parte de sua natureza. A aniquilação com a mão acompanha a aniquilação com o juízo”.

A amálgama cultural contemporânea tem como principal vítima os jovens, onde a parca formação ética e moral recebida na família e na vida comunitária, aliada ao fato de serem eles mais suscetíveis à absorvição dos valores reinantes, têm como consequência o surgimento de uma “juventude transviada”, como denominam os sociólogos.

As comunidades mais pobres também acabam sofrendo mais intensamente: “E o que resulta desse direito à multiplicação das necessidades? Para os ricos o isolamento e o suicídio espiritual, para os pobres, a inveja e o assassinato, porquanto esses direitos foram concedidos mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades”. (Dostoiéviski, Os irmãos Karamázovi). Lembramos aqui o trágico caso do ônibus 174, no Rio de Janeiro em 2000, que ficou detido no bairro do Jardim Botânico por quase 5 horas, sob a mira de um revólver, por Sandro Barbosa do Nascimento, vítima da antiga Chacina da Candelária. Esse rapaz, com sede de ser reconhecido socialmente e que dizia que queria ser famoso –  algo invejado e desejado por tanta gente – escolheu o caminho do crime para atingir este sonho.

Assim, parece-me equivocada a solução, proposta por alguns, de controle de natalidade dos pobres como forma de conter a violência, pois equivaleria a uma castração social, transformando aqueles que são vítimas da  violência em culpados.

Desta forma, além das necessárias e imprescindíveis reformas no nosso aparato estatal de repressão a violência, faz-se imprescindível uma mudança cultural,  de sorte a se propiciar uma sólida formação humana a todos os membros da sociedade, bem como a proposta de “novos valores” para a convivência pacífica do homem em sociedade, principalmente o respeito que toda pessoa deve ter pelos outros e pela justiça, sob pena de a sociedade dos homens autodevorar-se.

O respeito pelo homem e a justiça como eixos da vida em sociedade não são, entretanto, idéias inéditas. No mito de Protágoras, Platão nos mostra qual é o único apoio capaz de sustentar a sociedade dos homens. O mito nos ensina que não são suficientes as refinadas artes técnicas e o fogo, ou seja, as poderosas energias libertadas pela Técnica e pelo Trabalho, se a humanidade não recupera os outros dons divinos – os de Zeus -, isto é, o respeito e a justiça, que o rei do Olimpo desejou que fossem dados a todos sem distinção.

Ademais, Platão, numa passagem do Críton, explica muito bem o princípio segundo o qual não se deve fazer nunca o mal e a injustiça aos homens, nem mesmo quando se é vítima do mal e da injustiça. Não se deve fazer o mal nunca e tampouco devolver o mal por vingança.

Sem embargo, muitas vezes não basta a justiça para o serenamento dos ânimos e o restabelecimento da paz. Neste sentido, Cícero dizia: Summum ius, summa iniuria. [Cícero, De Officiis 1.10.33]. Às vezes justiça extrema é a maior injustiça. Assim, é preciso ainda a revolução do amor, do amor de doação, de querer o bem do outro pelo outro e de maneira desinteressada, para resolver de vez o problema da violência.
Sobre a caridade como fundamento da sociedade, o papa Bento XVI, em sua encíclica Deus Caritas Est (Deus é Amor) narra um interessante episódio ocorrido nos primórdios do cristianismo: “Uma alusão merece a figura do imperador Juliano o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada e praticada. Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelas guardas do palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele — com razão ou sem ela — ao imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo para se tornar realmente a força propulsora do império. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao próximo. Numa das suas cartas, [16] escrevera que o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religião. Os « Galileus » — dizia ele — tinham conquistado assim a sua popularidade. Havia que imitá-los, senão mesmo superá-los. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era uma característica decisiva da comunidade cristã, da Igreja”.

Assim, não é a técnica que restabelecerá o paraíso terrestre. A fé no progresso técnico, nos dizeres de Teodoro W. Adorno, levou ao progresso da funda à megabomba. Se a humanidade não recupera os outros dons divinos – os de Zeus -, isto é, o respeito e a justiça, e se não se fundamenta no amor, está condenada a autodestruição, como esteve à beira de acontecer no nosso passado recente com a segunda guerra mundial e a guerra fria.


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