Posts Tagged ‘etica’

Por que tratamos mal “os nossos”?

24 de maio de 2015

huge.102.512161Por Pedro Simas de Oliveira

Há um comportamento um tanto estranho que todos nós já adotamos alguma vez em nossas vidas, ou, ao menos, vimos alguém adotá-lo. Trata-se desse intrigante modo de agir em que se trata menos bem as pessoas mais próximas, nossos familiares sobretudo, do que outras pessoas menos importantes, cujos laços conosco são mais superficiais. Todos já o fizeram ou fazem, até mesmo aqueles considerados em seu meio como boas pessoas. É possível que a causa dessa atitude tenha por origem o nosso egoísmo, os nossos interesses pouco nobres que fazem nos preocuparmos apenas conosco.

Tal comportamento, muitas vezes, está presente tanto na vida dos mais quanto dos menos virtuosos. Quanto às pessoas que não são lá muito boas, de fato não é de se esperar que tratem muito bem os seus próximos. Mas e as pessoas que consideramos mais? Como é estranho quando isso ocorre com alguém por quem tenhamos grande admiração. É o simpático e pró-ativo trabalhador que se mostra completamente impaciente com a mãe ou esposa no telefone. O jovem revolucionário que diz amar os pobres do mundo inteiro mas não ajuda o irmão no dever escolar ou a mãe a lavar uma louça. Ou aquele nosso ótimo amigo que, quando vamos pela primeira vez à sua casa, responde atravessado sua mãe que apenas lhe questionou se ficaria para o almoço. Talvez a discrepância no humor seja a situação mais corriqueira. Quanto bom humor na rua, mas em casa…. Costumamos ficar um tanto chocados quando vemos isso ou quando percebemos que o fazemos. Parece que a boa imagem que tínhamos de nós ou da pessoa em questão se desfaz, e não é verdade que pensamos: “Como foi/fui capaz disso? Isso é muito estranho, fulano é tão bom… Como pode haver tamanha duplicidade?”

E o pior é que de fato devemos mesmo ficar chocados aos nos depararmos com essa situação, e certos de que há algo de muito errado. Há ao menos falta de coerência, duplicidade, e apesar de não sermos especialistas em ética, sabemos que as pessoas devem buscar ser as mesmas sempre e em todos os ambientes por que passam. Falta unidade de vida quando isso ocorre, passamos a representar distintos papéis conforme o ambiente, o que faz com que percamos a paz que a simplicidade e a sinceridade trazem. Mas será que isso é mesmo muito ruim? Afinal de contas, agimos sempre muito bem, somos admirados no trabalho e nas nossas relações de amizade, e só algumas poucas vezes tratamos um pouco mal “os nossos”, que, afinal, nos entendem e não se importam tanto com esse nosso jeito? Não nos enganemos, pois é justamente com as pessoas mais próximas que mostramos como realmente somos por dentro. É com essas pessoas que nos sentimos mais a vontade, e, assim, conseguimos ser mais nós mesmos. É a idéia que está por trás daquele bom e simples conselho que as pessoas mais velhas (ou mais prudentes) costumam dar aos mais jovens: para verificar se o namorado (a) é bom/boa mesmo, veja como trata sua família.

Mas tentemos ir à raiz. O que nos faz agir assim? O que explica tamanha mudança no comportamento ou tendência a tratar menos bem os mais próximos? É possível que o egoísmo seja uma das causas desse comportamento. Esse apego a nós mesmos e aos nossos interesses em detrimento dos outros. Não tratamos bem aos outros porque isso é bom, mas porque temos algum interesse por trás. Se julgássemos não ter nada a perder não sendo tão cordiais com os colegas de trabalho ou superiores, por exemplo, com certeza não os trataríamos melhor que os nossos familiares. Trataríamos sempre muito bem (ou muito mal) a todos, independentemente da proximidade. A verdade é que sabemos que mesmo sendo ríspidos, ingratos, chatos, com os nossos próximos, eles não deixarão de gostar de nós, de nos ajudar. E, assim, quando não há interesse nenhum, nós agimos como uns tolos. E, por outro lado, quanta cortesia e bom humor com outros. É que há muito em jogo, não é mesmo? A boa imagem no grupo, os convites, as notas, o próprio emprego… Mas será que não deveria ser justamente o contrário? Nossas atitudes deveriam se manter retas justamente em situações em que ausente qualquer interesse, naquelas que não temos nada a perder ou ganhar, pois isso demonstraria pureza nas nossas intenções, e que é o bem que nos importa e não os interesses mais ou menos mesquinhos. Trata-se de buscar agir sempre bem independentemente das contrapartidas que possamos ter. Além do mais, tenhamos em conta que “os nossos” são justamente aqueles a quem deveríamos tratar com mais cuidado, pois são aqueles gostam de nós pelo que somos, e que nos deram e dão tudo, tanto bens materiais quanto os bens mais preciosos como a educação…. Sejamos minimamente proporcionais e gratos, e tratemos melhor aos nossos pais, irmãos, familiares e amigos.

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OBRIGADO, BENTO XVI, POR MAIS ESTA LIÇÃO!!!

11 de fevereiro de 2013

11412_10151419593672270_1112174966_nPalavras de Ricardo LeãoEstamos tristes, porque o Papa do Amor, Bento XVI renunciou. É um ato surpreendente, extraordinário e maravilhoso do Papa – como tantos outros no seu pontificado -, pois mostra uma humildade santa de quem considerou – na presença de Deus e com serenidade – sem condições físicas para reger a Igreja nos tempos modernos, que exige um dinamismo impróprio para um homem de 87 anos. É um exemplo para todos nós que, muitas vezes, nos apegamos a cargos e ao poder, e não pensamos no serviço que os cargos (cargas) deprecam. Dói-nos, pois suas palavras e sua presença – lúcidas e precisas – na Sede de Pedro nos têm feito tanto bem. Mas seja feita a vontade de Deus. Rezemos agora para o próximo Papa. Qualquer outra especulação sobre a renúncia serão meras opiniões e imaginações, muitas delas baseadas na falta de fé em Deus e em falta de confiança na sinceridade desse homem fantástico e querido que é Joseph Ratzinger. Obrigado Papa Bento XVI. Obrigado Senhor, por nos ter presenteado com um Romano Pontífice à altura do seu Sagrado Coração. Abençoe-o Mãe Santíssima“.

Homenagem ao Exemplo

27 de maio de 2012

Peço licença aos leitores do blog para falar de uma pessoa muito especial.

No último dia 3, Virginia Rosa Sias, minha avó, finalmente descansou aos 91 anos. Escolheu o mês de Nossa Senhora, de quem era devota, para nos deixar.

Portuguesa, trabalhou desde criança até quase 80 anos, pois Portugal de sua infância era um país pobre e atrasado, que vivia do passado glorioso.

Minha avó era otimista e olhava para frente. “É pra frente que se anda. Quem anda para trás é caranguejo” dizia. Resolveu sair de lá. Turrona, veio de navio sozinha tentar a vida. Adotou o Brasil como país e o Rio de Janeiro como cidade. Adorava o Pão de Açúcar e a praia de Copacabana.

Em uma sociedade hedonista e consumista, minha avó era um delicioso anacronismo. Fazia milagres com seu dinheiro e dava lições de economia doméstica. Singelas, elas continham grande sabedoria: “ganhe 10, gaste 9 e guarde 1. Poupe sempre”.

Tudo que conquistou foi fruto exclusivo do seu esforço, dedicação e mérito. Trabalhou duro. Orgulhava-se de ter sido vendedora da Avon. Nas poucas horas vagas, fazia e vendia peças de tricô.

Nunca compreendeu pessoas preguiçosas. Estranhava movimentos sociais que estão sempre em busca de favores estatais. “Será que acham que dinheiro cai do céu?” sempre me dizia. Era a sua versão do “não existe almoço grátis” do famoso economista Milton Friedman.

Já velhinha, recusava-se a morar com a família. Respeitava a individualidade e a privacidade. “Cada um deve ter a sua vida e seu canto”. Preferia ficar no seu pequeno apartamento, comprado às duras penas com financiamento da Caixa Econômica. Só se rendeu quando não havia mais jeito.

Gostava de novelas, mas se desinteressou nos últimos anos. Segundo ela, só andavam incentivando “sem-vergonhices”. Não há argumentos contra a sua opinião.

Minha avó tinha muito fervor religioso – rezava todos os dias – e era a pessoa mais tolerante que conheci. “Cada um faz o que quer, não é? Se não esta incomodando os outros, ninguém deve se meter” aconselhava. Era moral sem ser moralista.

O que lhe faltava em cultura sobrava em valores morais. Seus ensinamentos eram ricos porque ancorados em uma tradição portuguesa e católica, as mesmas que formaram o nosso país e que vivem sendo questionadas por sociólogos ativistas bobocas.

Pensando nos valores que herdei de minha avó, não tenho como analisar a crise europeia como apenas uma crise econômica. Trata-se de uma crise de valores. Como unir um continente sob uma Constituição sem citar a contribuição do Cristianismo para sua identidade comum?

Defendia que a mulher trabalhasse e não fosse dependente do marido. Era feminista a sua moda, mas ficaria horrorizada com a defesa do aborto. Era do tempo em que se dedicar aos filhos era uma alegria e não um fardo.

Sua única mágoa da vida era não ter estudado. Por isso, valorizava a educação mais que tudo. Esforçou-se à exaustão para que minha mãe tivesse acesso ao conhecimento que ela não teve. Tinha o maior orgulho de sua filha e de seus netos por terem feito faculdade. Quem dera todos os brasileiros tivessem essa preocupação.

O que mais admirava nela era a sua ousadia e obstinação. Com todas as suas limitações, nunca desistia. Em uma época em que certos grupos defendem a eutanásia, minha avó suportou quase 9 meses de CTI com dignidade e bravura. Aliás, como fez com tudo em sua vida.

Deixou para sua família saudades e seu bem mais precioso: o exemplo.

Obrigado Vovó! É uma honra ser seu neto.

Rodrigo Sias é economista

A ética da substituição

7 de janeiro de 2012

As pessoas têm uma impressão subjetiva, mas errada, de que, ao renunciar a alguma coisa prazerosa, algo lhes rouba sua própria liberdade

A ciência da nutrição é hoje uma das atividades que mais ganha espaço e prestígio no meio acadêmico e profissional. O papel do nutricionista é cada vez mais valorizado ao orientar nossos hábitos alimentares, ajudando-nos a priorizar os aspectos da alimentação que são realmente importantes, levando-se em consideração as características e necessidades de cada pessoa. Sabe-se que a obesidade é muitas vezes consequência de vários fatores associados, inclusive de desequilíbrios nutricionais, ou seja, excessos e carências de nutrientes e, portanto, jamais será resolvida unicamente pela simples restrição na ingestão de calorias. Mais do que não comer, essa ciência tem descoberto que o que realmente importa é comer inteligentemente, evitando, por exemplo, misturar carboidratos com proteínas e alimentando-se de forma mais espaçada ao longo do dia.

Entretanto, por mais que a ciência alimentar avance na parte teórica, a dificuldade para depois colocar em prática essas orientações nutricionais é enorme, ainda mais se ampliada pela pressão cultural. Efetivamente, muitos hábitos alimentares sabidamente nocivos para a saúde – relacionados a fast food, churrascarias, rodízios de massas/pizzas, sorveterias requintadas, excessos nas sobremesas, refrigerantes nas refeições, entre outros – são estimulados pelas indústrias do setor, as quais, por meio de experientes técnicas de marketing a serviço de suas ânsias capitalistas, destroem propósitos bem intencionados de mudanças de hábitos alimentares. Em geral, a fraqueza humana cede rapidamente à satisfação de prazeres fáceis, ainda que sejam inconvenientes.

Essa mesma dialética pode ser ampliada para muitos outros prazeres humanos, como o sexual, o da diversão, o da vaidade, o do conforto, o de poder. Vejamos alguns exemplos. É cada vez mais comum descobrir patologias ligadas ao sexo desvairado, mas o homem pouco tem perseverado em sua prática responsável. A psicologia infantil tem denunciado consequências nocivas para o ensino-aprendizagem devido ao excesso de horas de tevê e de internet, mas muitos pais preferem deixar as crianças divertindo-se sem controle nesses veículos de comunicação. Portanto parece que, apesar da ciência continuar avançando na descoberta da verdade sobre o homem, este não consegue progredir na mesma proporção do ponto de vista ético. Qual seriam as causas dessas incoerências?

Acredito que a resposta para essa indagação esteja na ciência ética, que aponta a diferença entre a razão teórica (abstrata) e a razão prática. A primeira potencializa a inteligência para a descoberta dos princípios vitais que nascem das finalidades das ações – por exemplo, é bom ser sóbrio – enquanto que a razão prática, apoiada nesses princípios, vai julgar e decidir a conveniência das ações práticas concretas que levarão a alcançar tais fins. Seguindo com o exemplo anterior, ela verificará se, em determinada circunstância, tal pessoa deverá/poderá tomar ou não certa bebida alcoólica para se manter sóbria tendo em vista os outros e ela mesma. Essa virtude intelectual – a qualidade que facilita agir sempre dessa forma – é chamada de prudência. Mas existe ainda um terceiro movimento interior na dinâmica das virtudes. Não basta uma pessoa querer ser sóbrio (intenção) e identificar os meios para sê-lo (meios práticos concretos para alcançar a virtude) se depois não é capaz de renunciar àquilo que lhe resulta atrativo, mas que dificulta a sobriedade: essa é a virtude moral da temperança.

Infelizmente, a palavra “renúncia” parece ser hoje uma palavra proibida. As pessoas têm uma impressão subjetiva, mas errada, de que, ao renunciar a alguma coisa prazerosa, algo lhes rouba sua própria liberdade. Entretanto, muitas vezes essas pessoas não percebem que todas as boas escolhas trazem como consequência uma renúncia a outras alternativas, que também eram prazerosas, mas cuja renúncia depois se percebe que valeu a pena. O segredo está em aprender a escolher aquilo que é realmente mais prazeroso e duradouro.

Sou da opinião de que, diante de um mundo hedonista/materialista, no qual reina a ética do prazer sensível como ilusão de felicidade, nunca foi tão importante valorizar a educação da temperança, tanto na infância quanto nas demais idades. O filósofo alemão Rhonheimer a define como “o aperfeiçoamento do apetite concupiscível (aquele que inclina ao prazer), fazendo com que esse apetite dirija os sentidos (olhos, paladar, tato…) a valorizar o que é realmente mais prazeroso, não permitindo que o homem seja enganado por eles”. É interessante essa definição, porque a ênfase não é posta tanto na negação, na renúncia ao prazer, mas no aperfeiçoamento do apetite para o prazer material correto. Voltando a nosso exemplo inicial, a melhor maneira de evitar a obesidade e os problemas nutricionais está em aprender desde cedo a “comer inteligentemente” e a não ser enganado pelo mero bem aparente. Chamo esse exercício de ética da substituição. Por isso, uma boa mãe deve aplicá-la ajudando o filho a descobrir que é muito mais prazeroso brincar com os amigos na rua/playground do que ficar brincando comodamente no computador; uma boa professora precisa orientar seus alunos a experimentar a alegria de produzir e apresentar um trabalho escolar bem feito e demonstrar que vale muito mais a pena do que ficar deitado no quarto vendo tevê por horas a fio; um bom pai deve ajudar seu pimpolho a preferir ir com ele ver um pôr do sol do que ficar se escravizando na pornografia da internet.

Como vemos, a ética da substituição está muito longe da ética da repressão, da sublimação (Freud), da neurose. Pelo contrário, é a ética da afirmação! Desejo neste artigo que todos os educadores busquem os mesmos ideais de muitos bons nutricionistas atuais, de forma a orientar a razão prática de suas crianças a preferir claramente um bom “filé mignon” a montanhas insubstanciais de “algodão doce”. Tenho a certeza de que essa pressão interna que gera a virtude fará com que, aos poucos, mudemos a pressão cultural.

João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ. E-mail: malheiro.com@gmail.com Blog: escoladesagres.org

FONTE: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=1209965&tit=A-etica-da-substituicao

PARA COMEÇAR 2011 COM “FORÇA E HONRA”

1 de janeiro de 2011

Manifesto em Defesa da Democracia por Hélio Bicudo

24 de outubro de 2010

FELICIDADE NÃO SE COMPRA

15 de setembro de 2010

A Folha on line publicou reportagem comentando pesquisa da revista científica “PNAS” sobre os principais fatores de felicidade e de infelicidade na vida das pessoas. Foram feitas entrevistas com mais de 450 mil americanos.

Descobriu-se, por exemplo, que gente solitária se sente muito infeliz até em comparação com quem sofre de um problema crônico de saúde. Ter filhos, por outro lado, traz felicidade. No que tange a renda, para ser feliz, o importante não é ser rico, mas sim não ser pobre.

O fator campeão de bem-estar, porém, é ser uma pessoa religiosa.

Mas o interessante desta pesquisa é que ela coincide com o pensamento filosófico realista. Neste sentido, O filósofo Ricardo Yepes Stork comenta o seguinte: “A vida boa era para os clássicos  a que contém e possui os bens mais apreciados: a família e os filhos no lar, uma quantia moderada de riquezas, os bons amigos, boa sorte ou fortuna que afaste de nós a desgraça, a fama, a honra, a boa saúde, e, sobretudo, uma vida nutrida na contemplação da verdade e na prática da virtude”. (cfr. Fudamentos de Antropologia. Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio”).

Outro dado que salta aos olhos é a fé como o único fator que vence o dinheiro na busca pela felicidade. Mas por quê? A meu ver, exatamente por que a fé, se coerente e vitalizada,  proporciona sobretudo, uma vida nutrida na contemplação da verdade e na prática da virtude, afora a nossa necessidade de eternidade. Conforme ensina o mesmo Yepes “O homem deseja deixar o tempo para trás e ir mais adiante dele, para uma região onde o amor e a felicidade não se trunquem, onde fiquem a salvo de qualquer eventualidade e se façam definitivos. Por outro lado, o destinar-se à pessoa amada nos faz ver que uma pessoa humana não é suficiente para cumular as capacidades potencialmente infinitas do homem.(…) Deus é a suprema felicidade do homem, pois é n’Ele onde se cumula plenamente o desejo que marca a vida de todos os homens. Deus é o amigo que nunca falha. (…) Só com Deus o destino do homem com o tu está garantido, porque qualquer outro tu é falível, inseguro e mortal”.

Vemos assim que. para sermos felizes, não é necessária uma vida cômoda nas riquezas, mas um coração enamorado (S. Josemaría Escriva, Sulco, n. 795).

A VOVÓZELA

26 de junho de 2010

Quando estava lendo o jornal O Globo de domingo, dia 20 de junho, deparei-me com a imagem abaixo na Página Logo, de autoria do sociólogo Bruno Liberati, que penso representa muito bem a nossa “Vovózela” de hoje. Liberati construiu a gênese da nossa heroína a partir da década de 60, quando bebeu das águas da contracultura e da ideologia marxista. Assim a nossa jovem “questionou o sistema e queimou o sutiã”; “-Nos anos 70 viajei”, continua ela, referindo-se a suas experiências com as drogas; “-Nos anos 80 minhas utopias foram para o buraco”, ou seja, a derrocada do comunismo. Penso que a sociedade atual é o fruto do que foi semeado nesse período de 20 a 30 anos. Trata-se da ruptura com a tradição e da ascensão e queda das utopias, capitaneadas pelo comunismo, cuja meta maior era destruir o sistema anterior e o seu conjunto de valores, eis que baseados numa infra  estrutura capitalista e opressora. Resultado: os valores ruíram e, pouco tempo depois, desabou o ideal socialista. Resta agora, mais forte do que nunca, justamente o que fora combatido: o burguês em estado puro. Ou seja, “-Enquanto isso…a globalização rolou solta quebrando tudo – o neoliberalismo criou o deus mercado – a mídia tomou conta do espaço público e a vida virou um ‘irreality show’do espetáculo do consumo”. A sociedade atual é devota do deus Baco, da violência, das drogas, da “grana na cueca”, do “serlular” etc. É imperioso o resgate da ética dos valores e das virtudes, sob pena de nos devorarmos uns aos outros. Sobre o mundo após a crise das utopias, recomendo vivamente um artigo publicado na revista Dicta&Contradicta, do filósofo  Massimo Borghesi.

A história da Vovózela

ÉTICA DAS OBRIGAÇÕES VS ÉTICA DAS VIRTUDES

5 de dezembro de 2009

Platão e Aristóteles em Escola de Atenas, de Rafael

O fenômeno atual da codificação da ética decorre especialmente do pensamento de Emanuel Kant que, em sua Crítica da Razão Prática, definiu a moral como conjunto de máximas que podem ser generalizadas. Por isso, muitos pensam que a ética é um conjunto de regras, geralmente previstas em um código deontológico, onde está prescrito aquilo que o indivíduo pode e aquilo que ele não pode fazer.

Entretanto, a origem da Ética das Obrigações remonta ao séc. XIII, especialmente com o pensamento de Guilherme de Ockham, considerado como o representante mais eminente da escola nominalista. Para Ockham, não há nenhuma moralidade intrínseca às ações humanas, sendo ações moralmente boas ou más apenas porque Deus assim o quer. Deus, diz Ockham, poderia ordenar às criaturas que o odiassem, e neste caso odiar a Deus seria bom e meritório. A liberdade apresenta-se como a possibilidade de escolher entre o sim ou o não, pura e simplesmente.

Essa visão acaba reduzindo a ética a uma camisa de força da liberdade humana. Posteriormente surgirão críticas a ética assim conceituada, tal como no Marxismo e o pensamento de Nietzsche, onde os valores morais seriam impostos pelas classes dominantes, uma moral de escravos, construção cultural no tempo e espaço etc. Talvez isso explique a atual crise na moral e nos costumes, eis que, para muitos, “tudo é permitido”.

A proposta da Ética das Virtudes vai num sentido diametralmente oposto.

Calcada no pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, a Ética das Virtudes ressalta que o homem possui guias internos naturais para a realização do ser. O homem é, por natureza, finalístico. Píndaro, poeta da antiguidade, explicita essa idéia com a máxima “Torna-te o que és”. E a finalidade do agir humano é buscar o ideal de excelência na inteligência, na vontade e na afetividade. O homem é, portanto, um ser in fieri, ou seja, precisa preencher o seu ser de plenitude, e esse preenchimento levará a felicidade.

É no agir humano que o homem torna-se o que é. De certa forma, nos identificamos com o nosso agir, o que poderíamos chamar de efeito feed back. Nenhuma ação pessoal nos é indiferente. Tal como o fogo, que cresce ou se apaga, estamos a cada momento nos aproximando ou nos distanciando do nosso verdadeiro ser, dependo do nosso agir bom ou mal. E a repetição desses atos morais gera um hábito bom ou um hábito mal. O habito bom é o que chamamos de virtude, e o hábito mal, vício. São esses hábitos – como uma segunda natureza – que nos aproximam (virtudes) ou nos afastam (vícios) da verdade e do bem e, portanto, da felicidade.

Assim, vemos que bem, fim e perfeição de certa maneira se confundem. O homem ou é ético ou não é homem.

Não só as corporações devem identificar a sua Missão e a sua Visão, para utilizar uma conceituação empresarial moderna. Também o homem possui uma Missão e uma Visão.

Cabe a cada um descobrir qual é a sua.

AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA NOS TEMPOS ATUAIS

27 de setembro de 2009

Muito se fala sobre a escalada da violência em todo o mundo. Quanto a suas causas, no caso do Brasil, a opinião geralmente aceita é a de que seriam  basicamente duas: a impunidade reinante e a existência de bolsões de pobreza no país, solo fértil para o crescimento da criminalidade.

No que tange a impunidade, sem dúvida, os três poderes do estado têm a sua parcela de responsabilidade: o comportamento dúbio manifestado por diversas vezes pelo Judiciário na punição de delinquentes; o cipoal legislativo penal e processual penal, onde sempre é possível encontrar uma brecha; o despreparo da polícia, a falta de vontade política dos governantes para enfrentar o problema e resolvê-lo  de uma vez por todas  são fatores importantes para a banalização da violência no país.

Entretanto, notamos que todas as causas acima mencionadas são “extrínsecas ao homem” e mais conformes ao direito e a política. São medidas preventivas ou repressivas da violência, mas que não atuam na gênese da maldade.

A pobreza e a marginalização também não poderiam ser diagnosticadas como a razão da violência desmedida, haja vista que ela atinge a todas as classes sem distinção. Neste sentido, citamos como exemplo o caso de Suzane von Richthofen, uma bela moça da classe média alta paulistana que cursava direito em uma das melhores faculdades do país e que assassinara os pais a sangue frio e de maneira cruel, auxiliada pelo namorado e seu irmão; os Pitt boys etc. Além disso, lembramos que se trata de um drama internacional. Volta e meia nos deparamos no noticiário com a história de  uma criança assassina, um serial killer que anuncia a sua ação no YouTube e, após matar pessoas inocentes, suicida-se etc.

Assim, a meu ver, a raiz da banalização da violência atual não se encontra numa má distribuição de renda ou na falência do aparato estatal em combatê-la. Trata-se de um mal da sociedade atual, sofrido a nível mundial. A banalização da violência é a externalização, o sintoma de uma civilização definhando.

O homem atual encontra-se mergulhado no niilismo que, no entender de Nietzsche, “não é apenas a contemplação da inutilidade de tudo, nem apenas a convicção de que todas as coisas merecem cair na ruína,: pondo mãos à obra,  manda-as para a ruína...Isso é, se quiserem, ilógico; mas o niilismo não crê na obrigação de ser lógico…É o estado dos espíritos e das vontades fortes, e eles não conseguem determinar-se no não ‘do juízo’ – o não da ação faz parte de sua natureza. A aniquilação com a mão acompanha a aniquilação com o juízo”.

A amálgama cultural contemporânea tem como principal vítima os jovens, onde a parca formação ética e moral recebida na família e na vida comunitária, aliada ao fato de serem eles mais suscetíveis à absorvição dos valores reinantes, têm como consequência o surgimento de uma “juventude transviada”, como denominam os sociólogos.

As comunidades mais pobres também acabam sofrendo mais intensamente: “E o que resulta desse direito à multiplicação das necessidades? Para os ricos o isolamento e o suicídio espiritual, para os pobres, a inveja e o assassinato, porquanto esses direitos foram concedidos mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades”. (Dostoiéviski, Os irmãos Karamázovi). Lembramos aqui o trágico caso do ônibus 174, no Rio de Janeiro em 2000, que ficou detido no bairro do Jardim Botânico por quase 5 horas, sob a mira de um revólver, por Sandro Barbosa do Nascimento, vítima da antiga Chacina da Candelária. Esse rapaz, com sede de ser reconhecido socialmente e que dizia que queria ser famoso –  algo invejado e desejado por tanta gente – escolheu o caminho do crime para atingir este sonho.

Assim, parece-me equivocada a solução, proposta por alguns, de controle de natalidade dos pobres como forma de conter a violência, pois equivaleria a uma castração social, transformando aqueles que são vítimas da  violência em culpados.

Desta forma, além das necessárias e imprescindíveis reformas no nosso aparato estatal de repressão a violência, faz-se imprescindível uma mudança cultural,  de sorte a se propiciar uma sólida formação humana a todos os membros da sociedade, bem como a proposta de “novos valores” para a convivência pacífica do homem em sociedade, principalmente o respeito que toda pessoa deve ter pelos outros e pela justiça, sob pena de a sociedade dos homens autodevorar-se.

O respeito pelo homem e a justiça como eixos da vida em sociedade não são, entretanto, idéias inéditas. No mito de Protágoras, Platão nos mostra qual é o único apoio capaz de sustentar a sociedade dos homens. O mito nos ensina que não são suficientes as refinadas artes técnicas e o fogo, ou seja, as poderosas energias libertadas pela Técnica e pelo Trabalho, se a humanidade não recupera os outros dons divinos – os de Zeus -, isto é, o respeito e a justiça, que o rei do Olimpo desejou que fossem dados a todos sem distinção.

Ademais, Platão, numa passagem do Críton, explica muito bem o princípio segundo o qual não se deve fazer nunca o mal e a injustiça aos homens, nem mesmo quando se é vítima do mal e da injustiça. Não se deve fazer o mal nunca e tampouco devolver o mal por vingança.

Sem embargo, muitas vezes não basta a justiça para o serenamento dos ânimos e o restabelecimento da paz. Neste sentido, Cícero dizia: Summum ius, summa iniuria. [Cícero, De Officiis 1.10.33]. Às vezes justiça extrema é a maior injustiça. Assim, é preciso ainda a revolução do amor, do amor de doação, de querer o bem do outro pelo outro e de maneira desinteressada, para resolver de vez o problema da violência.
Sobre a caridade como fundamento da sociedade, o papa Bento XVI, em sua encíclica Deus Caritas Est (Deus é Amor) narra um interessante episódio ocorrido nos primórdios do cristianismo: “Uma alusão merece a figura do imperador Juliano o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada e praticada. Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelas guardas do palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele — com razão ou sem ela — ao imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo para se tornar realmente a força propulsora do império. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao próximo. Numa das suas cartas, [16] escrevera que o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religião. Os « Galileus » — dizia ele — tinham conquistado assim a sua popularidade. Havia que imitá-los, senão mesmo superá-los. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era uma característica decisiva da comunidade cristã, da Igreja”.

Assim, não é a técnica que restabelecerá o paraíso terrestre. A fé no progresso técnico, nos dizeres de Teodoro W. Adorno, levou ao progresso da funda à megabomba. Se a humanidade não recupera os outros dons divinos – os de Zeus -, isto é, o respeito e a justiça, e se não se fundamenta no amor, está condenada a autodestruição, como esteve à beira de acontecer no nosso passado recente com a segunda guerra mundial e a guerra fria.


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