ÉTICA DAS OBRIGAÇÕES VS ÉTICA DAS VIRTUDES

Platão e Aristóteles em Escola de Atenas, de Rafael

O fenômeno atual da codificação da ética decorre especialmente do pensamento de Emanuel Kant que, em sua Crítica da Razão Prática, definiu a moral como conjunto de máximas que podem ser generalizadas. Por isso, muitos pensam que a ética é um conjunto de regras, geralmente previstas em um código deontológico, onde está prescrito aquilo que o indivíduo pode e aquilo que ele não pode fazer.

Entretanto, a origem da Ética das Obrigações remonta ao séc. XIII, especialmente com o pensamento de Guilherme de Ockham, considerado como o representante mais eminente da escola nominalista. Para Ockham, não há nenhuma moralidade intrínseca às ações humanas, sendo ações moralmente boas ou más apenas porque Deus assim o quer. Deus, diz Ockham, poderia ordenar às criaturas que o odiassem, e neste caso odiar a Deus seria bom e meritório. A liberdade apresenta-se como a possibilidade de escolher entre o sim ou o não, pura e simplesmente.

Essa visão acaba reduzindo a ética a uma camisa de força da liberdade humana. Posteriormente surgirão críticas a ética assim conceituada, tal como no Marxismo e o pensamento de Nietzsche, onde os valores morais seriam impostos pelas classes dominantes, uma moral de escravos, construção cultural no tempo e espaço etc. Talvez isso explique a atual crise na moral e nos costumes, eis que, para muitos, “tudo é permitido”.

A proposta da Ética das Virtudes vai num sentido diametralmente oposto.

Calcada no pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, a Ética das Virtudes ressalta que o homem possui guias internos naturais para a realização do ser. O homem é, por natureza, finalístico. Píndaro, poeta da antiguidade, explicita essa idéia com a máxima “Torna-te o que és”. E a finalidade do agir humano é buscar o ideal de excelência na inteligência, na vontade e na afetividade. O homem é, portanto, um ser in fieri, ou seja, precisa preencher o seu ser de plenitude, e esse preenchimento levará a felicidade.

É no agir humano que o homem torna-se o que é. De certa forma, nos identificamos com o nosso agir, o que poderíamos chamar de efeito feed back. Nenhuma ação pessoal nos é indiferente. Tal como o fogo, que cresce ou se apaga, estamos a cada momento nos aproximando ou nos distanciando do nosso verdadeiro ser, dependo do nosso agir bom ou mal. E a repetição desses atos morais gera um hábito bom ou um hábito mal. O habito bom é o que chamamos de virtude, e o hábito mal, vício. São esses hábitos – como uma segunda natureza – que nos aproximam (virtudes) ou nos afastam (vícios) da verdade e do bem e, portanto, da felicidade.

Assim, vemos que bem, fim e perfeição de certa maneira se confundem. O homem ou é ético ou não é homem.

Não só as corporações devem identificar a sua Missão e a sua Visão, para utilizar uma conceituação empresarial moderna. Também o homem possui uma Missão e uma Visão.

Cabe a cada um descobrir qual é a sua.

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2 Respostas to “ÉTICA DAS OBRIGAÇÕES VS ÉTICA DAS VIRTUDES”

  1. R.S Says:

    Muito bom Tatarana!!

    O que eu acho muito paradoxal é porque os filósofos modernos tendem a ignorar os ensinamentos da filosofia grega antiga. Ai acabam “reinventando a roda” e não ajudam em nada…

    No seu post só faltou falar da relação entre “ética e Deus” no sentido grego da coisa.

    Para os gregos, a virtude está diretamente relacionada com Deus.

    Abraço!

  2. rachel (irmã) Says:

    Excelente!

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