AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA NOS TEMPOS ATUAIS

Muito se fala sobre a escalada da violência em todo o mundo. Quanto a suas causas, no caso do Brasil, a opinião geralmente aceita é a de que seriam  basicamente duas: a impunidade reinante e a existência de bolsões de pobreza no país, solo fértil para o crescimento da criminalidade.

No que tange a impunidade, sem dúvida, os três poderes do estado têm a sua parcela de responsabilidade: o comportamento dúbio manifestado por diversas vezes pelo Judiciário na punição de delinquentes; o cipoal legislativo penal e processual penal, onde sempre é possível encontrar uma brecha; o despreparo da polícia, a falta de vontade política dos governantes para enfrentar o problema e resolvê-lo  de uma vez por todas  são fatores importantes para a banalização da violência no país.

Entretanto, notamos que todas as causas acima mencionadas são “extrínsecas ao homem” e mais conformes ao direito e a política. São medidas preventivas ou repressivas da violência, mas que não atuam na gênese da maldade.

A pobreza e a marginalização também não poderiam ser diagnosticadas como a razão da violência desmedida, haja vista que ela atinge a todas as classes sem distinção. Neste sentido, citamos como exemplo o caso de Suzane von Richthofen, uma bela moça da classe média alta paulistana que cursava direito em uma das melhores faculdades do país e que assassinara os pais a sangue frio e de maneira cruel, auxiliada pelo namorado e seu irmão; os Pitt boys etc. Além disso, lembramos que se trata de um drama internacional. Volta e meia nos deparamos no noticiário com a história de  uma criança assassina, um serial killer que anuncia a sua ação no YouTube e, após matar pessoas inocentes, suicida-se etc.

Assim, a meu ver, a raiz da banalização da violência atual não se encontra numa má distribuição de renda ou na falência do aparato estatal em combatê-la. Trata-se de um mal da sociedade atual, sofrido a nível mundial. A banalização da violência é a externalização, o sintoma de uma civilização definhando.

O homem atual encontra-se mergulhado no niilismo que, no entender de Nietzsche, “não é apenas a contemplação da inutilidade de tudo, nem apenas a convicção de que todas as coisas merecem cair na ruína,: pondo mãos à obra,  manda-as para a ruína...Isso é, se quiserem, ilógico; mas o niilismo não crê na obrigação de ser lógico…É o estado dos espíritos e das vontades fortes, e eles não conseguem determinar-se no não ‘do juízo’ – o não da ação faz parte de sua natureza. A aniquilação com a mão acompanha a aniquilação com o juízo”.

A amálgama cultural contemporânea tem como principal vítima os jovens, onde a parca formação ética e moral recebida na família e na vida comunitária, aliada ao fato de serem eles mais suscetíveis à absorvição dos valores reinantes, têm como consequência o surgimento de uma “juventude transviada”, como denominam os sociólogos.

As comunidades mais pobres também acabam sofrendo mais intensamente: “E o que resulta desse direito à multiplicação das necessidades? Para os ricos o isolamento e o suicídio espiritual, para os pobres, a inveja e o assassinato, porquanto esses direitos foram concedidos mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades”. (Dostoiéviski, Os irmãos Karamázovi). Lembramos aqui o trágico caso do ônibus 174, no Rio de Janeiro em 2000, que ficou detido no bairro do Jardim Botânico por quase 5 horas, sob a mira de um revólver, por Sandro Barbosa do Nascimento, vítima da antiga Chacina da Candelária. Esse rapaz, com sede de ser reconhecido socialmente e que dizia que queria ser famoso –  algo invejado e desejado por tanta gente – escolheu o caminho do crime para atingir este sonho.

Assim, parece-me equivocada a solução, proposta por alguns, de controle de natalidade dos pobres como forma de conter a violência, pois equivaleria a uma castração social, transformando aqueles que são vítimas da  violência em culpados.

Desta forma, além das necessárias e imprescindíveis reformas no nosso aparato estatal de repressão a violência, faz-se imprescindível uma mudança cultural,  de sorte a se propiciar uma sólida formação humana a todos os membros da sociedade, bem como a proposta de “novos valores” para a convivência pacífica do homem em sociedade, principalmente o respeito que toda pessoa deve ter pelos outros e pela justiça, sob pena de a sociedade dos homens autodevorar-se.

O respeito pelo homem e a justiça como eixos da vida em sociedade não são, entretanto, idéias inéditas. No mito de Protágoras, Platão nos mostra qual é o único apoio capaz de sustentar a sociedade dos homens. O mito nos ensina que não são suficientes as refinadas artes técnicas e o fogo, ou seja, as poderosas energias libertadas pela Técnica e pelo Trabalho, se a humanidade não recupera os outros dons divinos – os de Zeus -, isto é, o respeito e a justiça, que o rei do Olimpo desejou que fossem dados a todos sem distinção.

Ademais, Platão, numa passagem do Críton, explica muito bem o princípio segundo o qual não se deve fazer nunca o mal e a injustiça aos homens, nem mesmo quando se é vítima do mal e da injustiça. Não se deve fazer o mal nunca e tampouco devolver o mal por vingança.

Sem embargo, muitas vezes não basta a justiça para o serenamento dos ânimos e o restabelecimento da paz. Neste sentido, Cícero dizia: Summum ius, summa iniuria. [Cícero, De Officiis 1.10.33]. Às vezes justiça extrema é a maior injustiça. Assim, é preciso ainda a revolução do amor, do amor de doação, de querer o bem do outro pelo outro e de maneira desinteressada, para resolver de vez o problema da violência.
Sobre a caridade como fundamento da sociedade, o papa Bento XVI, em sua encíclica Deus Caritas Est (Deus é Amor) narra um interessante episódio ocorrido nos primórdios do cristianismo: “Uma alusão merece a figura do imperador Juliano o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada e praticada. Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelas guardas do palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele — com razão ou sem ela — ao imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo para se tornar realmente a força propulsora do império. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao próximo. Numa das suas cartas, [16] escrevera que o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religião. Os « Galileus » — dizia ele — tinham conquistado assim a sua popularidade. Havia que imitá-los, senão mesmo superá-los. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era uma característica decisiva da comunidade cristã, da Igreja”.

Assim, não é a técnica que restabelecerá o paraíso terrestre. A fé no progresso técnico, nos dizeres de Teodoro W. Adorno, levou ao progresso da funda à megabomba. Se a humanidade não recupera os outros dons divinos – os de Zeus -, isto é, o respeito e a justiça, e se não se fundamenta no amor, está condenada a autodestruição, como esteve à beira de acontecer no nosso passado recente com a segunda guerra mundial e a guerra fria.

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2 Respostas to “AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA NOS TEMPOS ATUAIS”

  1. M. P. Says:

    Bom texto!

  2. Philippe Says:

    Legal!

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