Posts com Tag ‘O DIREITO INJUSTO É DIREITO?’

STJ mantém adoção de crianças por casal homossexual – I

4 de maio de 2010

Em decisão inédita, o Superior Tribunal de Justiça manteve decisão que permitiu a adoção de duas crianças por um casal de mulheres. Após elogiar a aresto do Tribunal do Rio Grande do Sul, o presidente da Quarta Turma, ministro João Otávio de Noronha, fez um esclarecimento: “Não estamos invadindo o espaço legislativo. Não estamos legislando. Toda construção do direito de família foi pretoriana. A lei sempre veio a posteriori”, afirmou o ministro.

Ao meu ver, com o referida justificativa para a decisão, o ministro Noronha reconheceu que alguma coisa não está legal.

É que, no Brasil, diferentemente de países que seguem o sistema do common law, a construção da jurisprudência tem como pressuposto e fundamento inafastável o princípio da legalidade, ou seja, “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (art. 5º, inciso II, da Constiuição Federal). Assim, a Carta Constitucional não prevê nenhuma exceção para tal princípio, nem mesmo o direito de família.

Poder-se-ia contra argumentar que, na visão da doutrina jurídica moderna, o juiz não pode ser visto como uma mera “boca da lei”, aplicando a norma mecanicamente mediante um silogismo puro e simples. Neste sentido, Aristóteles fala da equidade, ou seja, compete ao magistrado fazer a correção da lei quando ela é deficiente em razão de sua universalidade, ou seja, um complemento da justiça que permite adaptá-la aos casos particulares.

Entretanto, não me parece ser o caso em questão, tendo em vista que é proposital a não previsão, pelo legislador, da adoção por casal homosexual. Assim, não há que se falar em equidade, pois a lei não previu, intencionalmente, a possibilidade da referida  adoção.

Estamos sim, diante de clara invasão do espaço do Legislativo pelo Judiciário, sendo inconstitucional a decisão em comento.

PNDH 3 E A VENEZUELIZAÇÃO DA IMPRENSA

21 de março de 2010

O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, negou que a terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) pretenda regular a mídia e defendeu um debate com os meios de comunicação para deixar claro que não haverá, segundo ele, risco à liberdade de expressão. Vannuchi, afirmou, no entanto, querer propor à imprensa alguns critérios de aperfeiçoamento nas questões envolvendo o tema. “Não é regulamentar”, disse. A nossa idéia é mostrar que é preciso ter uma discussão com a imprensa que não envolva o cerceamento ou o risco de liberdade de expressão. Não queremos alterar a mais ampla e plena liberdade. A informação é do jornal O Globo.

Não é, entretanto, o que dizem os jornalistas.

Em evento organizado pelo Instituto Millenium, representantes dos principais veículos de comunicação do país criticaram mais uma vez o PNDH 3. Foram apresentadas as conclusões e afirmações categóricas de uma linha de pensamento que a imprensa brasileira já não tem mais vergonha de defender, quais sejam:

- o setor de comunicação no país não precisa de mais leis, e sim de auto-regulação

- as Conferências Nacionais representam a estatização da opinião de minorias e são promovidas por entidades da sociedade civil cujo teor é decisivamente determinado por interesses partidários, governamentais ou ambos

- é urgente fazer um debate forte contra o Programa Nacional de Direitos Humanos para impedir que ele seja implementado

Segundo o jornalista Carlos Alberto Di Franco,  “é no controle da imprensa, sobretudo da mídia independente e formadora de opinião, que os estrategistas do Planalto investem com mais vigor. Silenciada a imprensa, sucumbe a cidadania. Se as leis propostas forem aprovadas, o governo poderá suspender programações e cassar licenças de rádios e de televisões, quando houver “violações” de direito humanos. Será criado um ranking nacional de veículos de comunicação baseado em seu “comprometimento” com os direitos humanos. Lula manifesta crescente insatisfação com o trabalho da imprensa. Para o presidente da República, um político que deve muito à liberdade de imprensa e de expressão, imprensa boa é a que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda. Está, na visão de Lula, a serviço da “elite brasileira“.

Trata-se de um processo de venezuelização da mídia, utilizando-se da democracia direta (plebiscitos e referendos) como mecanismo de legitimação da prática de atos atentatórios aos pilares do estado democrático de direito. Vox populi, vox dei, diz o ditado. Sabemos onde isso pode acabar: Hitler utilizou-se destes mecanismos para justificar as maiores atrocidades.

Silenciada a imprensa, sucumbe a cidadania.

LULA, CUBA e ANTÍGONA

14 de março de 2010

Sófocles (496 a.C.-406 a.C.), autor de Antígona

Recentemente, o Nosso Guia fez declarações relativas a prisioneiros políticos de Cuba que estão em greve de fome. Ele criticou a greve de fome e comparou a situação dos dissidentes a de presos comuns: “-Eu penso que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos que estão presos em São Paulo entrassem em greve de fome e exigissem liberdade. Nós temos que respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de prender as pessoas em função da legislação de Cuba”, declarou. Esse comentário me fez lembrar o post que escrevi sobre o direito injusto. Naquela ocasião, comentei que há situações em que a “lei injusta” não só pode como deve ser desrespeitada, porque não constitui verdadeiro direito e o seu cumprimento causaria graves injustiças. Neste caso incluem-se as leis que desrespeitam a dignidade da pessoa humana, como a legislação cubana que qualifica como crime o fato de alguém ter opinião contrária ao regime autoritário instalado naquela ilha desde 1959. A liberdade de expressão, opinião e de imprensa constitui valor fundamental de todos estados democráticos de direito e como tal deve ser defendida pelas nações democráticas. Talvez falte ao Nosso Guia os ensinamentos de Creonte em Antígona, de Sófocles : “Quero vos prometer ouvir sempre os mais sábios, calar quando preciso, falar se necessário e jamais colocar o maior interesse do melhor amigo e do mais íntimo parente acima da mais mesquinha necessidade do povo e da pátria” . Lula pode até ser amigo de Fidel, mas enquanto chefe de estado, deve colocar de lado os sentimentos particulares e ideológicos para defender os direitos e garantias fundamentais da pessoa humana.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.